Fenomenologia paulina do engano
Quando Paulo exorta os gálatas contra o falso evangelho que eles tomam por verdadeiro (Gl 3.1), ele os chama de “insensatos” (“ἀνόητοι”), repetindo a acusação que Jesus faz aos discípulos no caminho de Emaús (Lc 24.25) por serem “tardos de coração” (“βραδεῖς τῇ καρδίᾳ”). Assim como aqueles discípulos diante do Cristo ressurreto, eles conheciam a verdade, mas sua visão estava turva. De fato, parece que há um feitiço posto sobre seus olhos (“βασκαίνω”), um encanto que nos faz tomar um objeto pelo outro, um falso evangelho (“ἕτερον εὐαγγέλιον”, 1.6) como se fosse o verdadeiro (“εὐαγγέλιον τοῦ χριστοῦ”, 1.7). Seus olhos estão sob um feitiço poderoso, a imagem do Cristo crucificado, inicialmente construída pela pregação, foi sequestrada por uma anti-pregação, tornando-a uma anti-imagem, posto que somente a imagem da Lei surge como real imagem pela qual se pode viver.
O fetiço é, aqui, a forma retrospectiva do engano. “Retrospectiva” porque o engano nunca aparece a nós como engano, e é nisso que consiste sua força. O engano surge primeiro como verdade auto-evidente. Ela não é mentira, simples negação do verdadeiro, mas se apresenta como o único verdadeiro possível, uma verdade “inocente”. Como tal, ele não apenas não representa uma crise para uma totalidade de sentidos como, em vez disso, a pressupõe e a reforça, se apoia nela e serve a ela como sua manutenção. Marx entendeu que esse tipo de encanto tem a capacidade de colocar como óbvio para nosso horizonte “coisas físicas metafísicas” (O Capital, I, cap. 1), e que sua dialética poderia decompor o engano para determiná-lo novamente sob sua negação. A estratégia de Paulo é outra: o engano só deixa de aparecer como verdade e passa a se apresentar como engano quando o nexo entre seu sentido pretendido e seu fundamento é colocado em questão por meio de uma crise. “Apresentar uma série de pergunta retóricas era uma forma de enfatizar a mensagem; tratava-se, em muitos casos, de um modo de oferecer um desafio ao leitor” (Keener, Comentário histórico-cultural).
“Retórica” não deve ser entendida apenas como um meio persuasivo de se convencer alguém de uma opção dentre muitas outras, mas de uma mobilização da linguagem que desperta o interlocutor. O fundamento dessa retórica não é beleza que distrai da verdade, mas despertar propriamente para o que é verdadeiro. É assim que Paulo busca romper esse feitiço em 3.2-5, por meio de uma série de perguntas que pretendem despertar os gálatas do encanto. Inicialmente, Cristo foi exposto como crucificado de modo a romper o encanto que ocultava que o reino desse mundo já pertence a Jesus (“ἀκοῆς πίστεως”). Agora, mais uma vez, a palavra deve romper o encanto do que pretende ser mais verdadeiro do que a palavra (“ἔργων νόμου”). “Paulo faz mais uma pergunta retórica sobre a experiência inicial dos gálatas com o evangelho como uma forma de repreendê-los por sua abertura à mensagem dos agitadores” (Moo, BECNT, comentário de Gl 3.2).