O problema se constitui como problema especialmente para a teologia evangélica, que parece se aproximar teoricamente do campo da arte sempre em caráter de justificativa.

Em certo sentido, não poderia ser diferente. Ao criticar a posição de Leland Ryken quanto à importância da imaginação, Clark privilegia o conteúdo “mental” e reduzível a uma proposição que a obra de arte pode ter. Isso fica especialmente evidente pois, em sua consideração, ele opta por privilegiar o papel da crítica, e não do artista ou do filósofo da arte, no conteúdo intelectual que a arte vincula:

Será que nem mesmo a fruição das artes depende mais da mente que das emoções? Os críticos de pinturas examinam o trabalho do pincel, avaliam a relação entre a luz e as áreas escuras (por exemplo, o mendigo, a filha e o bebê dela, e o dono da casa, desenhados por Rembrandt) e analisam a composição. A composição exige pensamento criterioso da parte do artista e do crítico. Essas análises são intelectuais, não emocionais. Quase não consigo imaginar os desenhos de Rembrandt despertando intensas emoções em alguém. Se estiverem certos os fatos que o biógrafo de Leonardo da Vinci tem sobre ele, pode parecer que esse príncipe dos pintores era completamente não emotivo, e se não o fosse, sua emoção era a irritação contínua. […] Mas a estética não é a dificuldade principal com a passagem citada [de Ryken] nem tem muita importância para o cristianismo (Clark, 2010, p. 73).

Nesse texto de 1984, o valor do campo da estética para o cristão ainda parece ser algo a se conquistar. Ainda assim, outros pensadores cristãos (e evangélicos!) da arte já haviam trabalhado ou ainda trabalhavam o tema.

Kilby formula com muita clareza como se constitui esse problema:

“Deve a minha crença nos fundamentos da fé cristã causar alguma diferença em minha atitude para com as artes? Tenho eu, como cristão, mais, menos ou exatamente o mesmo direito de apreciar as artes do que outros, que não professam a visão cristã? Pode um cristão devotar sua vida à criação ou estudo da música, pintura, literatura e outras artes?” (Kilby, 2024, p. 25)

Em outros ensaios, ele ainda expande o status quaestionis:

“Uns poucos cristãos ortodoxos sentem um antagonismo completo pelas artes. Muitos outros são relativamente indiferentes com elas. Outros — e penso que os números nesta classe estão crescendo — gostariam sinceramente de saber se a fé cristã e uma devoção profunda por Jesus como Senhor de suas vidas proíbe mais do que um interesse superficial pelas artes” (p. 146)

Em Rookmaaker, o problema tem duas camadas. A primeira camada consiste no desafio comum para o artista contemporâneo. “Comum” porque tanto o artista cristão quanto o artista não cristão tem sobre si a seguinte pressão: de um lado nossa cultura espera ao mesmo tempo muito e pouco dos artistas. De um lado, eles são “sumos sacerdotes da cultura, conhecedores dos segredos internos da realidade”; de outro, “são vistos como pessoas completamente supérfluas” (Rookmaaker, 2010, p. 9).

Interessantemente, Rookmaaker reputa o momento histórico da origem desse problema como o surgimento da estética moderna, especialmente em Kant (acompanhado por Schelling e Hegel, cf. p. 14): “Claro que esse não é um problema novo. Tem sido assim desde o século 18, quando o antigo conceito do artista como artesão começou a ser trocado por um conceito que o considerava tanto um gênio talentoso quanto um segregado social e econômico” (ibidem). Mas há uma segunda camada de pressão que o artista cristão sofre, que consiste na desconfiança de seus contemporâneos ateus e de sua própria comunidade de fé. Pelos primeiros, ele é visto como “ultraconservador ou totalmente ultrapassado”; pelos últimos, como “radicais ou desocupados imprestáveis. […] acusados de estarem no caminho errado desde o princípio” (p. 10).

Igualmente, Schaeffer, no clássico A arte e a Bíblia, se aproxima do campo da arte problematizando sua validade para o cristão:

“Qual o lugar da arte na vida cristã? Será que a arte — especialmente as pelas artes da pintura e da música — é simplesmente uma forma de fazer a mundanalidade entrar pela porta dos fundos? Sabemos que a poesia pode ser usada para louvar a Deus nos Salmos e talvez até em hinos modernos. Mas e a escultura e o teatro? Será que há espaço para essas formas de arte também na vida cristã? Não seria melhor o cristão fixar o olhar apenas nas “coisas religiosas” e esquecer a arte e a cultura?” (Schaeffer, 2010, p. 15).

Evidentemente, essa formulação tem em vista, na verdade, a vida cristã.

A despeito da profundidade da conferência de Kuyper, ou exatamente em razão dela e do público para quem foi proferida, a formulação segue a mesma direção:

“A questão não é se o Calvinismo com seu ponto de vista superior produziu o que não era mais permitido criar, a saber, um estilo de arte geral próprio dele, mas qual interpretação sobre a natureza da arte flui de seu princípio. Em outras palavras, há na biocosmovisão do Calvinismo um lugar para a arte, e se sim, qual lugar?” (Kuyper, 2014, p. 236).

Interessantemente, o problema da justificativa não se deu apenas entre o quadro problemático da relação entre evangélicos e cultura na primeira metade do século 20. Gadamer, partindo de um lugar completamente distinto e se movendo em outra matriz de preocupações, formula o problema da justificativa da arte a partir de suas novas formas, mas, de modo inesperado para alguns leitores evangélicos desavisados, privilegiando um momento histórico que deveria ser familiar para eles:

Parece-me muito significativo que na questão da justificativa da arte esteja-se a lidar não só com um tema atual, mas também com um bastante antigo. […] Pela primeira vez tornou-se visível que não é óbvio que a existência continuada de conteúdos tradicionais, aceitos e interpretados de modo vago, em forma imagética e narrativa, possua o direito de verdade que pleiteia. […] [A Reforma] pôs em evidência, por seu lado, uma nova forma artística de modo muito especial: a forma de uma música transmitida pelo canto paroquial, que reanimou, do ponto de vista do canto, a linguagem formal da música […] O problema, isto é, a questão da justificativa da arte, ganha nesse contexto uma primeira e determinada orientação (Gadamer, 1985, p. 11).


Clark, G. H. (2010). Em defesa da teologia (M. J. S. Vasconcelos, Trad.). Brasília: Monergismo.

Gadamer, H.-G. (1985). A atualidade do belo: A arte como jogo, símbolo e festa (C. A. Galeão, Trad.). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

Kilby, C. S. (2024). As artes e a imaginação cristã (W. Dyrness & K. Call, Eds.; F. Barnabé, Trad.). Brasília: Monergismo.

Kuyper, A. (2014). Calvinismo (2.a ed.; R. Gouvêa & P. Arantes, Trads.). São Paulo: Cultura Cristã.

Rookmaaker, H. R. (2010). A arte não precisa de justificativa (F. Guarany Jr., Trad.). Viçosa: Ultimato.

Schaeffer, F. A. (2010). A arte e a Bíblia (F. Guarany Jr., Trad.). Viçosa: Ultimato.