Capa de Tasmânia, livro de Paolo Giordano

Eu nunca visitava as cidades. As cidades não me importavam, eram todas iguais ou, enfim, eram aquilo que se esperava que fossem. Me interessavam só os quartos de hotel, e ficava mais contente se davam para um estacionamento interno. (p. 207)

Benjamin disse que a flânerie só poderia nascer em Paris, e não em Roma, já que esta foi edificada por seus forasteiros, diferente de Paris. O que não deixa de ser engraçado, porque os dois flâneurs de quem mais tenho gostado são Jep Gambardella e o protagonista de Tasmânia. E a flânerie de ambos só pode se dar enquanto forasteiros. Talvez seja por isso que, em Tasmânia, ora estamos em Paris, ora em Guadalupe, ora em Trieste, ora em Roma etc. Mas, se a flânerie de Constantin Guys em Baudelaire e Benjamin é uma busca do que se abre na cidade, em Tasmânia estamos no rastro de uma fuga.

Existe um modo de sobrevivência em um mundo complicado, que é se esforçar para torná-lo sempre mais complicado: “… se não houvesse essa conferência sobre o clima é provável que eu inventasse alguma outra desculpa para partir, um conflito armado, uma crise humanitária, uma preocupação diferente e maior do que as minhas e pela qual eu seria sugado. Talvez esteja aí a fixação que alguns de nós sintam com desastres iminentes, a inclinação para tragédias que achamos ser nobre, aquilo que constituirá, acho, o centro desta história: a necessidade de encontrar a cada passo muito complicado da nossa vida algo ainda mais complicado, algo mais urgente e ameaçador no qual diluir nosso sofrimento pessoal. E talvez a nobreza não tenha mesmo nada ver com tudo isso” (p. 11). Talvez seja por isso mesmo que a melhor descrição do mundo dos personagens de Tasmânia venha de um de seus renegados: “Se quer de mim uma definição apropriada da época que vivemos, é esta: um mundo pré-traumático” (p. 114).

No mundo pré-traumático, realidade e sugestionamento se embaralham: “Na sua transmissão radiofônica, Novelli foi sarcástico. Depois falou mais seriamente de como realidade e sugestionamento se misturam agora na nossa vida de modo verdadeiramente estranho” (p. 135); e não é tanto que a verdade seja relativa ou não existe, do contrário não haveria ciência, mas não há um lugar apropriado para ela: “Descobri que me casei com uma passionaria. Quem diria? Está convencida de que fará prevalecer a verdade. Pena que não tenha se dado conta de que vive numa época em que a verdade não importa para mais ninguém” (p. 247). Talvez seja por isso mesmo que a espiritualidade que o mundo tolera se pareça mais com algo que se repete — primeiro como farsa, depois como tragédia — ou como uma piada que vai perdendo a graça quanto mais vezes se conta ou mais repetível se torna: “Naquela altura, ambos acreditávamos estar anestesiados ao terror, e não éramos os únicos. A hashtag #PrayFor perdia força. Os últimos dois anos foram um contínuo #PrayForAlgumaCoisa, esse agora era o mundo em que vivíamos, não tinha muito pelo que rezar, era preciso só aceitá-lo” (p. 99).

No mundo pré-traumático, tudo parece fora do lugar, o que não deixa de ser engraçado para nós, que nos acostumamos confiar a medida de todas as coisas à tecnologia. Mas há algumas coisas que ainda permanecem bastante humanas e pouco quantificáveis, como o constrangimento: “O iPhone escolheu como trilha sonora Born to Be Wild, que parece acertado para a cena, mas demonstra também que o algoritmo não entendeu nada daquela manhã em Fiumicino; não entendeu nada do constrangimento no hall quando nos encontramos os quatro, eu, Lorenza, o pai de Eugenio e a companheira dele; não entendeu nada sobre mim, que tomo notas sobre a maneira como Eugenio se despede de nós, da tristeza que recai sobre mim quando finalmente o vejo desaparecer na fila dos controles, uma tristeza que não havia previsto e que eu não sabia nem se era por ele ou por mim” (p. 128); ou mesmo nossa presença, que, mediada por um smartphone ou computador, é reduzida a um quadro: “Ao dizer isso, Tanaka-san fez o primeiro movimento visível da webcam, percorrendo o antebraço com a outra mão, por todo o comprimento do osso exposto do avô. Depois seu braço desapareceu de novo sob o enquadramento” (p. 147). Estar presente por uma interface, aliás, é um mundo de estar presente em todo lugar apenas com o objetivo de se ausentar, como acontece na contra-flânerie global em Tasmânia.

Em Tasmânia, o trauma está sempre sendo antecipado, mas nunca resolvido realmente.

… a realidade que tem entrado em nossas vidas ultimamente. Pensem nos vídeos que chegaram às nossas casas, os do massacre do Hamas e os de Gaza, o campo de refugiados. A vida no presente é uma loucura nesse sentido. Em 2016, muitos de nós assistimos àqueles vídeos de decapitação que eram propaganda do ISIS e eram reais. Então, eu acho que o que um romancista pode fazer hoje é apenas tentar administrar tudo isso porque cada um trabalha nessa realidade incontrolável. Procurei abraçar essas situações e incluí-las no livro para tentar entender como é a nossa vida neste momento.

Paolo Giordano, Tasmânia, tradução de Wander de Mello Miranda (Belo Horizonte: Âyiné), 292 páginas.


Em tempo, fazia anos que não gastava horas em uma livraria garimpando algo novo para ler. Valeu muito a pena.