Participar do Advento é se dar conta de que às vezes nossa espera se dá a nós com seu prazo de realização, às vezes não — e que as coisas mais importantes pelas quais esperamos parecem ser do último tipo. O Advento nos encontra com a espera que para nós parece sem prazo, o tipo de espera que define o sentido de todo o restante do tempo. “Até quando, Senhor?” é o tema de vários salmos a respeito da espera pela intervenção divina em meio ao caos, o clamor do povo de Deus aguardando a vinda do Messias, como também é o clamor do povo da nova criação hoje aguardando a segunda vinda de Cristo. Essa espera nos encontra tanto na impaciência de nossa finitude quanto na impaciência típica de nossa época, à espera sempre da próxima “grande coisa”, da próxima “hard news”, de algo que nos dê a sensação de que estamos nos movendo para algum lugar.

Participar do Advento é um pouco como aceitar o paradoxo de Epicuro, mas distendê-lo temporalmente, já que o único modo de se entender as coisas realmente importantes é pelo tempo. O paradoxo do Advento é, em certo sentido, ao mesmo tempo mais desafiador e mais certeiro do que o de Epicuro. Distendendo temporalmente as especulações, o Advento desafia a experiência cotidiana da incerteza e do sofrimento. O Advento é o paradoxo de Epicuro tensionado pela “bondade inesperada” (graça) de Deus: não uma questão de se Deus pode ou não agir no sofrimento presente, mas de confiar em sua promessa ao longo do tempo. A incerteza não é resolvida, mas atravessada pela bondade divina, e é no silêncio da espera que esse atravessamento se torna possível.

Só assim conseguimos ver o mesmo que Calvino: “Portanto, não falemos mais em termos vagos e abstratos sobre a bondade de Deus. Todos falam dessa maneira! Ao contrário, devemos dizer: Deus é de fato bom e será bom para conosco, porquanto nossa confiança está fixada nele. Ora, como isso seria? Não porque já atingimos uma ideia do que nos acontecerá. E sim porque temos sua promessa; sabemos que ele é fiel e jamais frustrará nossa esperança. Nunca busquemos viver por meio de nossos próprios deleites, mas voltemo-nos para a Palavra de Deus, a qual, sendo as genuínas regras de nossa vida, nos propicia a certeza de que, uma vez que Deus nos haja atraído a si, não voltará atrás, enquanto seguirmos a vereda que ele nos mostra. E, sabendo o quanto somos fracos, oremos para que ele nos fortaleça e nos dê sempre a graça de perseverar, capacitando-nos a vencer toda prova e obstáculo mundanos, e todo entrave que porventura o diabo ponha em nosso caminho. Quando depositarmos nossa confiança nele e no testemunho que ele nos tem dado de seu beneplácito, a fé triunfará sobre todos os ataques que porventura o diabo e o mundo nos façam” (Cânticos da natividade [Monergismo, 2019], p. 98-9).

Participar do Advento é se deixar moldar por uma certa consciência do tempo — e pelo silêncio que ele nos impõe, difícil de encontrar na nossa confusão. A única certeza é esta: na espera, aprendemos a reconhecer o eco das promessa.