“Justiça e santidade todos os dias” – Advento e redenção no agora
A narrativa moderna nos encoraja a pensar a salvação como um momento de ruptura para a autorrealização: um antes e um depois, o corte cirúrgico que remove todo o mal de nós. Mas, como canta o Benedictus, a salvação bíblica é mais complexa — e desconfortável. Não é apenas a segurança da libertação, mas a tensão contínua de viver “em santidade e justiça”, um paradoxo que nos mantém alertas, sem repouso em nós mesmos. A salvação que Zacarias canta não termina no livramento. Ela nos captura, nos redireciona e nos posiciona “em sua presença [de Deus]” (v. 75) como uma oferta contínua.
Sob a luz da graça divina na obra de Cristo, o descanso total se dá fora do que imaginamos, posto que ele parte precisamente de uma obra: diante da obra perfeita de Cristo, nosso descanso é acompanhado pela convocação a um tipo de servidão que rejeita o medo, não porque o medo tenha desaparecido, mas porque fomos ensinados a olhar para ele sob uma nova luz. É disso que Crisóstomo fala: “Sendo livrados das mãos de nossos inimigos, podemos cultuá-lo e servi-lo sem medo. […] A mão do Senhor traz tanto segurança quanto glória. Segurança real, pois nos resgata das mãos de nossos inimigos, não de modo sutil, mas maravilhoso, de modo que não temos mais o que temer”. A segurança, no entanto, não tem tanto a ver com ameaças segundo o mundo. Ao Messias não cumpre principalmente a libertação de Israel contra os romanos, mas a realização do Reino de Deus. Zacarias descreve a vida dos resgatados como marcada por “santidade e justiça” (v. 75). Para alguns, isso reflete uma relação dupla: santidade para com Deus e justiça para com os homens. Para outros, implica uma dinâmica ética: não fazer o que Deus proíbe e fazer o que ele exige. Em qualquer caso, o chamado é claro — viver uma vida que se orienta por padrões divinos, mesmo em um mundo que opera segundo outras leis. A salvação não é apenas uma libertação das trevas, mas uma convocação à luz, como disse Beda: “Cristo é corretamente chamado de Aurora, pois ele nos revelou o surgimento da verdadeira luz. Dar luz aos que estão em trevas e na escuridão da morte.” A imagem da Aurora não é apenas poética, mas profundamente existencial. Ela sugere um despertar contínuo, uma exposição ao que preferiríamos manter oculto. Na luz, vemos não apenas Deus, mas também a nós mesmos, e é nesse encontro que a santidade e a justiça são moldadas.
Entre a Redenção e a Consumação, a vulnerabilidade é tanto um dom quanto um fardo — e é por isso que Advento continua sendo espera mesmo depois da primeira vinda do Messias. Somos chamados a servir “todos os nossos dias” (v. 75), mas na época do instante, do efêmero, a durabilidade soa como uma sentença. A espera pela salvação final — a segunda vinda de Cristo — lança luz em nosso tempo que é ao mesmo tempo consoladora e desconfortável, posto que ela ilumina a todos (Jo 1.9ss) e atordoa os que pensam ter dilatado as pupilas o suficiente para se acostumarem com as trevas. Não é à toa que as raízes mais profundas do desespero contemporâneo se manifestem na incapacidade de sustentar qualquer coisa por muito tempo: seja uma relação, uma causa ou uma fé. O Benedictus nos lembra que a salvação não é apenas sobre ser libertado, mas sobre ser colocado em uma nova posição — na presença de Deus, sob a luz de sua verdade, que expõe e transforma. Essa luz, no entanto, não apenas conforta; ela também perturba, pois revela que ainda estamos sendo moldados enquanto esperamos pela Consumação. Participar do Advento hoje é se recusar aos esquemas dos finais fáceis e desenvolvimentos previsíveis; é viver sob a tensão do “já” e “ainda não”. Perguntamos como a bondade de Deus pode se manifestar em um mundo que parece estruturado para o sofrimento. O cântico de Zacarias responde não com uma proposição, mas com um convite: caminhar à luz da Aurora, na presença daquele que transforma o medo em serviço e a espera em fidelidade.