“Deixa ir em paz teu servo” — Advento e o fim do colapso
Participar do Advento tem a ver com perceber que “paz” não é algo marcado primeiramente por ausência, mas por plenitude. Paz, pensamos, é fugir: ir à praia, ao interior, apenas o som da natureza, sem os ruídos que nos estressam. Mas, se paz é plenitude, então não pode ser o silêncio vazio do nada; tem de ser, antes, o descanso naquilo que foi cumprido, que alcançou o telos. O Nunc Dimittis deve ser um cântico desconcertante para nós exatamente por isto: uma oração de despedida, mas sem angústia. “Agora podes deixar ir em paz o teu servo” (Lc 2.29) — soa inverossímil para nós, sempre por realizarmos algo e não exatamente para cumprir, mas para evitar um fim. Para Simeão, porém, o fim não é colapso, mas consumação. A qualquer custo, evitamos a ideia de um fim. Os calendários são intermináveis, as notícias nunca cessam — embora funcionem quase sempre no caráter de repetição —, os aplicativos nos mantêm informados do que já sabemos. Tudo conspira para nos fazer sentir que nada deve terminar: nossos dias, nossas carreiras, até mesmo nossos corpos. Isso lembra, em parte, a fuga heideggeriana do ser-para-morte. Mas, aqui, o encontro da autenticidade tem de se dar por assumir um papel no drama divino. Não somos mais plenos na conquista de nosso ser mais próprio, mas no fruto da graça divina. Morrer em paz, como Simeão, soa mais estranho do que qualquer ficção científica.
O problema para participar do Advento com esse tipo de paz no horizonte talvez esteja nisto: não conhecemos mais a capacidade de pensar o fim como algo que dá forma ao que precede fora do horizonte escatológico secularista. Sem a soberania de Deus, o horizonte secular se limita a tentativas humanas de controle que nunca podem dar sentido pleno ao tempo. Sem a ideia de que algo se completa, nosso tempo se torna achatado e nossas experiências, fragmentos desconexos — sempre esperando por algo que nunca chega. Não estamos falando de revolução, é claro; tampouco de um imobilismo historicista. A espera moderna, revolucionária ou reacionária, é vazia porque é desprovida de um destino claro. Esperamos, mas não sabemos o que, ou por quê. Simeão, por outro lado, sabia o que esperava. Sua paz não vem da ausência de conflito, mas da presença de Cristo. O que ele viu foi suficiente para reconfigurar toda a sua relação com o tempo, com a vida e até mesmo com a morte. No encontro com o Messias, passado, presente e futuro são reconfigurados pela espera, enfim, realizada. Não é como se Simeão não tivesse medo do fim — é que o fim se tornou porta, não muro.
O Nunc Dimittis nos provoca porque subverte o modo como pensamos a realização. Para Simeão, ver o Cristo é suficiente para descansar. Para nós, o importante é nunca parar, nunca estar satisfeitos. Sempre há um próximo marco, um próximo objetivo, uma próxima meta. Nos dividimos entre o povo do “já” e o do “ainda não”. Vivemos no “ainda não” porque nunca deixamos que nada seja suficiente ou no “já” se pensamos que não há saída para a crise presente senão o pragmatismo. O Advento, porém, nos oferece uma pausa. Não para fugir do tempo, mas para ser reconfigurado pela participação da espera pela Segunda Vinda. Participar do Advento é deixar de ver o fim como o colapso e passar a vê-lo como o cumprimento de uma promessa. O que Simeão viu em Cristo foi mais do que a redenção de Israel; foi a luz para os gentios, a glória de um povo e a certeza de que a história não termina em vazio, mas em revelação.
Há uma pergunta que o Nunc Dimittis nos deixa: o que estamos esperando? O que acreditamos que nos permitirá descansar? Para Simeão, foi a visão da salvação — a confirmação de que Deus é fiel e cumpre sua promessa. Para nós, talvez a resposta seja mais difícil. Vivemos cercados por promessas que não cumprem nada, promessas que nos mantêm em movimento, mas nunca nos deixam chegar. O Nunc Dimittis nos desafia a olhar para o fim como ele é: consumação, não catástrofe. A paz de Simeão não é luxo; é a essência da salvação. Ele viu, ele descansou, ele partiu. O Advento nos chama a algo parecido: aprender a ver na luz de Cristo não só o sentido do tempo, mas também o sentido do nosso fim. Porque só quando aprendemos a esperar pelo que importa é que somos capacitados pela graça a descansar no que já foi feito, a descansar no que já foi feito por Cristo e no que ainda será plenamente consumado na Segunda Vinda.