Rute e Marília de Dirceu apresentam dois modelos de como seres humanos lidam com adversidade e esperam por algum tipo restauração. A comparação é útil, afinal, Rute é um “romance idílico […] um conto que descreve um aspecto simples e agradável da vida rural e doméstica”, além de ser a “obra-prima de arte narrativa na Bíblia” (Ryken, 2023, p. 138), o que une esse pequeno livro do cânon veterotestamentário ao belo livro de TAG, um dos momentos mais fascinantes da consciência literária de nosso povo. O mais recente caminha pela trilha de uma harmonia secularizada com a natureza; o outro, pela confiança na providência divina. Ambos os livros evocam imagens de colheitas e de inícios renovados, mas seus pontos de partida e de chegada (arche e telos) não poderiam ser mais contrastantes.

Tomás Antônio Gonzaga, em suas liras, projeta um mundo onde a simplicidade pastoril é suficiente para a plenitude humana. Em versos como: “Vem, Marília, vem comigo,/ Deixa a cidade, que, aborrece,/ E, entre penhas e arvoredos,/ Junto de um manso regato,/ Onde as aves vêm beber,/ Formaremos nosso Estado.”

Há refúgio na ordem natural. Aqui, a beleza do regato e a constância das estações são garantias implícitas de estabilidade. O amor é um pacto entre duas pessoas que se bastam, uma forma de harmonia interna que ecoa o suposto equilíbrio externo da natureza. Esta é a promessa de um jardim: o homem se integra à natureza e a natureza não trai. A Marília de TAG é uma Rute presa à Moabe pelo lado de dentro, como a Rute de Francesco Hayez, a quem Rookmaaker perspicazmente nota que “chama nossa atenção a tudo que não devia chamar nossa atenção. É difícil decidir se ela era de fato virtuosa ou não”.

Por outro lado, o Livro de Rute não oferece um refúgio escapista. A “fuga” em Rute é, aliás, um dos eixos pelo qual se constrói toda a tensão no início da história: a fuga para Moabe, a fuga de volta para Belém. A fuga, porém, é o meio pelo qual o livro nos permite ver a mão de Deus por todos os lugares e povos. Rute apresenta um mundo onde fome, morte e a exclusão são presenças constantes. Mas é também um mundo onde a providência de Deus age, mesmo nas sombras da contingência. Rute deixa sua terra não porque encontrou harmonia na natureza, mas porque encontrou fidelidade em Noemi e uma esperança no Deus de Israel. Sua jornada termina no campo de Boaz, onde a colheita simboliza não apenas alimento, mas a restauração do nome de Elimeleque e, por fim, a redenção messiânica.

O contraste não poderia ser mais nítido. Enquanto Gonzaga escreve, em tom quase hedonista “A natureza, que é bela,/ Aformoseia o regato;/ O nosso amor, minha bela, /Fará o mundo encantado”, o Livro de Rute reconhece que a natureza por si só não é suficiente. A colheita, em Rute, é uma obra da graça divina, não do esforço humano isolado. O campo não é apenas um cenário bucólico, mas o palco onde Deus age para trazer redenção.

Em Gonzaga, há uma implícita negação do conflito profundo. Mesmo em versos que aludem à adversidade, como: “Porém na adversidade,/ Que é dura prova aos mortais, /Marília, eu vejo que és firme, /Que só tu não mudas mais”. O conflito parece mais uma abstração do que uma realidade concreta. Já o Livro de Rute abraça o peso da realidade e a transforma ao confiar em um Deus que não muda. A promessa bucólica de Gonzaga é esteticamente atraente, mas permanece frágil diante da contingência que o Livro de Rute não apenas admite, mas redime. A harmonia secularista de Gonzaga depende de uma ilusão de constância na natureza; já a narrativa de Rute se fundamenta na fidelidade de um Deus que age no tempo, transformando campos comuns em cenários de redenção. “Apesar do relativo secularismo como um todo, ele precisa ser interpretado como um relato glorioso da providência divina” (Block, 2024, p. 757) de modo que, em vez de secularizar nossa perspectiva, o livro nos treina para ver a mão de Deus em tudo.

No fim, o jardim de Gonzaga encanta, mas é no campo de Boaz que a restauração acontece.


Block, Daniel I. 2024. Juízes e Rute. São Paulo: Vida Nova.

Rookmaaker, H. R. 2018. “O problema dos temas cristãos em arte”. P. 185–214 em O dom criativo. Brasília: Monergismo.

Ryken, Leland. 2023. Uma introdução literária à Bíblia. São Paulo: Vida Nova.