Os caminhos para Emaús e Moabe — espaços liminares na história da redenção
O conceito de espaço liminar é frequentemente associado a transições, mas alguns desses espaços têm o poder de despertar um desconforto profundo. Pense em construções modernas abandonadas: são lugares onde o tempo parece suspenso, símbolos de um futuro que prometia prosperidade, mas nunca chegou. Encontramos espaços liminares também na narrativa bíblica, onde o tempo parece suspenso e sabemos que algo será deixado para trás. Pense no caminho de Emaús, Peniel, o caminho de Moabe para Belém, o poço de Samaria, ou o vau de Jaboque. No caminho de Emaús, os discípulos de Jesus caminhavam após sua morte, dominados pela melancolia. Suas esperanças haviam sido canceladas com a crucificação, e o futuro parecia ter se fechado. Presos à melancolia de um “futuro cancelado” (para usar a expressão de Mark Fisher), o que esperavam — a redenção de Israel por meio de Jesus — parecia irremediavelmente frustrado. O caminho de Moabe para Belém oferece outra perspectiva. Noemi retorna em meio à amargura de suas perdas, trazendo consigo Rute, a moabita, mas também a promessa de um futuro inesperado. Marcada pela perda, Noemi retorna ao seu povo com o coração pesado, mas é nesse espaço liminar que se abre a reviravolta redentiva. Rute opta por abraçar o Deus de Israel e um futuro se abre não somente para ela e Noemi, mas para todos os povos e Israel. Nesse enredo, não há espaço para violência ou ressentimento como forças criativas; encerra-se em redenção a trilogia belemita dos juízes. Em vez disso, a redenção surge sob o hesed do Senhor da aliança — a fidelidade amorosa que transforma o amargo em doce. O mais notável é como esses textos, especialmente a construção literária de Rute, nos colocam dentro dos próprios espaços liminares que descrevem. Estamos ali, no caminho para Belém, diante de uma escolha: voltar para o futuro cancelado em Moabe, onde reina o desencanto, ou atravessar os campos da redenção, confiando no hesed de Deus.