Este pequeno exemplo que Calvino dá sobre a providência de Deus sobre as coisas inanimadas, além de muito perspicaz, conecta habilmente a descrição “das coisas como são” à nossa situação existencial, trocando nosso costumeiro espectro ordinário-extraordinário por um mais profundo, em que as mãos e os olhos de Deus o percorrem inteiramente: “Não há entre as criaturas força mais admirável e ilustre do que a do sol, pois, além de iluminar todo o orbe com seu fulgor, o quanto não dá do vigor e favorece todos os animais com seu calor? […] Mas o Senhor, para reivindicar a si pleno louvor de todas essas coisas, antes de criar o sol, quis que existisse luz e que a terra estivesse repleta de todo gênero de ervas e frutos [Gn 1, 3.11]. Portanto, o homem piedoso não terá no sol causa principal ou necessária das coisas que antes da criação do sol existiam, mas somente instrumento do qual Deus se serve, pois pode, se assim quiser, deixá-lo de lado e, sem nenhuma dificuldade, agir por si. […] Nada é mais natural do que a primavera suceder ao inverno, do que o verão à primavera, do que o outono ao verão. E, nessa série, se percebe tanta diversidade que facilmente se vê que cada um dos anos, meses e dias é composto com uma nova e especial providência de Deus” (Institutas, I.XVI.2).