Que se chamem épicas igualmente as obras de Homero, Virgílio, Tolkien, Lewis, Martin, Sanderson etc. perde de vista não apenas misturar autores consagrados com autores “de mercado”, mas também que o sentido do épico entre os mais antigos e os mais novos se constitui de modo distinto. Essa distinção resume-se na expressão: worldbuilding. Não obstante existam workshops e técnicas de worldbuilding, um worldbuilding fantástico só nos convence quando nos convida a enxergá-lo pela precariedade de seu mundo: seres divinos abandonando espadas fractais no mundo dos homens, festas esperadas que anunciam um antigo mal despertando para consumir tudo, uma guerra que separa famílias, conspirações políticas que redesenham genealogias e continentes. Todas essas histórias constroem seu mundo para o leitor exatamente pelo primeiro passo em que este mesmo mundo começa a acabar, e é assim que somos capturados pelo seu worldbuilding. Esse parece ser um recurso típico do que é o épico de nosso tempo. Se no antigo épico “o mundo objetivo […] emancipa-se em larga medida da subjetividade do narrador”, marcado, ainda, por um traço estilístico que Aristóteles identificou como “um conteúdo de vasto assunto”, de modo que isso daria em “sintaxe e linguagem mais lógicas, atenuação do uso sonoro e dos recursos rítmicos” (Rosenfeld, 1985, p. 24-25), na fantasia épica contemporânea é apenas quando as estruturas que sustentam aquele mundo colapsam é que sua forma passa a se tornar visível. Esse sintoma é comum ao que Heidegger entende que a história reservou para a filosofia agora: pensar a precariedade de todos os inícios, ou o pensamento do outro início (não confundir com “novo início”). Nesse sentido, Heidegger é semelhante, mas diferente de Hegel. Diferente em razão de uma afirmação zizekiana: “o olhar fixo de Hegel sobre a realidade é o de um aparelho de raio X: ele vê em tudo que é vivo os traços de sua futura morte”. O worldbuilding de Heidegger é diferente porque não vê na morte de um mundo a razão de sua precariedade, mas em seu início. É, contudo, semelhante a Hegel porque ambos desmantelam a ilusão de qualquer estrutura estável. Quer a ruína seja uma promessa futura (Hegel) ou uma condição originária (Heidegger), habitar esse mundo exige assumir a sua falência. É por isso que Heidegger destaca o pressentimento como tonalidade afetiva fundamental, “posiciona a in-sistência inicial no ser-aí. Ela é em si horror e entusiasmo ao mesmo tempo - contanto, sempre, que, enquanto tonalidade afetiva fundamental, ele afine e determine aqui de maneira afinadora o estremecimento do seer no ser-aí enquanto ser-aí.” Se o raio-X hegeliano vê a ruína futura escondida sob a glória presente, o worldbuilding heideggeriano enxerga a ruína no próprio ato de fundar. A magia da fantasia contemporânea reside em nos forçar a assumir esse pressentimento. Quando os elfos partem rumo ao oeste ou quando os deuses abandonam suas espadas, a história não está acabando, mas exigindo que o leitor sintonize com o horror e o entusiasmo de um mundo que, para existir como épico, precisa estar sempre à beira do colapso estrutural.